A IA generativa tornou incontornável uma pergunta que a escola e a universidade adiaram por tempo demais: o que, exatamente, estamos a avaliar quando premiamos um produto final bem apresentado? Durante anos, muitos dispositivos avaliativos tomaram o texto pronto como evidência suficiente de aprendizagem. Hoje, esse pressuposto perdeu robustez. Um trabalho pode soar impecável e, ainda assim, não revelar compreensão, domínio conceitual, critério de escolha, nem capacidade de sustentar intelectualmente o que foi afirmado. Quando a forma pode ser rapidamente “aperfeiçoada” por ferramentas externas, a avaliação que se limita ao resultado torna-se vulnerável, e a instituição corre o risco de certificar aparência onde deveria reconhecer percurso.
A resposta coerente não é transformar a avaliação num tribunal de suspeitas, nem declarar guerra à tecnologia. É reposicionar o foco: avaliar aquilo que tem densidade formativa e que permanece decisivo mesmo com ferramentas avançadas — a intencionalidade da investigação, a rastreabilidade do raciocínio, a qualidade das decisões e o rigor da verificação. É neste ponto que o portfólio, organizado por metodologia investigativa, se impõe como dispositivo forte. Ele permite acompanhar versões, registros, ajustes, leituras, impasses, critérios e sínteses; permite, sobretudo, distinguir uma produção meramente “bem redigida” de uma produção sustentada por pensamento.
Num portfólio investigativo, o estudante não entrega apenas conclusões; apresenta o caminho que as tornou plausíveis: delimita uma pergunta exequível, justifica recortes, explicita fontes, mostra evidências do percurso e incorpora feedback com razões claras. A autoria deixa de ser uma assinatura ao pé da página e passa a ser responsabilidade intelectual: consigo explicar por que escolhi este argumento, em que evidências me apoiei, que limites reconheço e o que ainda preciso aprofundar. Se a IA foi utilizada, ela entra com transparência e verificação — como apoio técnico, nunca como substituto do pensamento.
Para que essa mudança não se converta em sobrecarga docente, é preciso desenho institucional: rubricas enxutas e comuns, checkpoints distribuídos, seleção de peças-chave do portfólio e defesas orais breves, capazes de revelar compreensão real. Assim, a integridade acadêmica deixa de depender de policiamento constante e passa a emergir do próprio formato avaliativo. Em tempos de IA, o produto final já não basta; o percurso, quando bem evidenciado, continua a ser o melhor lugar para reconhecer aprendizagem — com justiça, rigor e sentido pedagógico.
Profa. Dra. Alice Santos
Ciências da Educação – Avaliação Formativa