13 de fevereiro de 2026

Reunião das « Conjunções » no Palácio Central

Houve uma grandiosa festa no Palácio do Planalto, um evento tão extraordinário que reuniu todos os sujeitos da Língua Portuguesa e as mais ilustres autoridades da nação. Enquanto as conjunções desfilavam seu carisma, ministros ocupavam os espaços com discursos e debates fervorosos.

Alegoria política no Palácio do Planalto
Quando a linguagem governa sem ética, o país vira um parágrafo mal escrito — cheio de conjunções, mas sem sentido.

A conjunção “e”, sempre diplomática, foi a primeira a se aproximar do Ministro da Integração, propondo acordos capazes de unir interesses diversos. Já “mas”, com seu olhar desconfiado, trocou farpas elegantes com o Ministro da Defesa, questionando, com sutileza, cada proposta apresentada. Por sua vez, “ou” encontrou o Ministro da Economia e ofereceu alternativas ousadas, deixando o ambiente repleto de especulações.

O Ministro do Meio Ambiente foi cativado por “embora”, que lhe entregou um discurso encantador sobre a travessia das adversidades. “Porém” não perdeu tempo: dirigiu-se ao Ministro da Justiça e debateu questões polêmicas em tom incisivo, ainda que ponderado. “Portanto” tomou a palavra junto ao Ministro da Educação, traçando conclusões claras e objetivas sobre a importância de aproximar teoria e prática.

Mas foi diante de um Ministro do Supremo Tribunal Federal que o ápice do evento aconteceu. Ali, “porque”, acompanhada de “se”, iniciou um embate verbal digno de literatura, buscando razões e condições para justificar as decisões mais importantes. O Ministro, com autoridade e serenidade, ouviu cada argumento como quem julga um caso histórico, enquanto as demais conjunções formavam um círculo atento ao redor, prontas para intervir.

Naquela noite, as palavras provaram seu poder, mostrando que, seja na gramática, seja na política, é a arte de conectar ideias que transforma diálogos em soluções. No Brasil, porém, essa harmonia tem sido desfigurada por jogos de interesse. Nossa política, tantas vezes arbitrária e desconexa, apropria-se das conjunções não para criar pontes, mas para mascarar verdades e justificar ações que ferem o senso de justiça.

“Porque” virou desculpa em discursos inflamados; “mas”, um recurso para suavizar promessas quebradas. “Se” é lançado ao vento em condicionalidades que jamais se concretizam, e “ou” serve para impor escolhas que, na realidade, são imposições disfarçadas.

As conjunções, outrora símbolos de união e propósito, tornaram-se instrumentos de manobra, em que o elo entre as palavras oculta intenções pouco confessáveis. Naquela festa, elas pareciam cansadas de serem manipuladas: sussurravam entre si sobre um Brasil que merecia mais do que discursos vazios e promessas condicionais.

À medida que a noite avançava, começaram a se retirar, uma a uma, fatigadas do uso distorcido de seus sentidos. “E” já não conseguia unir ideias tão opostas; “mas” se perdeu em tantas contradições que já não sabia de que lado ficar. “Portanto” deixou de concluir, enquanto “porque” desistiu de explicar o inexplicável.

Por fim, diante do Supremo, restaram apenas “se” e “ou”“Se” questionava o futuro, como quem não encontra certezas em meio ao caos. “Ou” oferecia alternativas, mas nenhuma parecia promissora. O Ministro, no centro da sala, observava em silêncio, com o olhar carregado do peso das decisões que deveriam ser imparciais, mas tantas vezes acabam moldadas por forças que escapam às vistas do povo.

Quando o último brinde foi feito, instalou-se um vazio: palavras desconexas, discursos ensaiados e a percepção amarga de que, na política brasileira, as conjunções são usadas para maquiar a verdade, esconder culpas e perpetuar desigualdades.

Longe dali, o povo, com olhar descrente, assistia das janelas às investidas daqueles que afirmavam agir em seu nome.

O verdadeiro desfecho não estava na festa, mas nas ruas, onde o verbo resistir começava a ecoar — tímido, porém constante. Talvez um dia as conjunções voltem a cumprir seu papel: unir, explicar, esclarecer; não legitimar o injustificável.

O Brasil, de cores vibrantes e riquezas inigualáveis, já simbolizou diversidade, força e esperança. Essas cores, que representavam o melhor de nós, parecem hoje sufocadas por um cinza opaco, onde interesses pessoais ditam as regras e o significado de ser brasileiro se distancia de sua essência.

Políticos, em manobras frias, tratam o país como mercadoria: fragmentam-no em fatias destinadas a interesses internos e externos, enquanto o povo — a verdadeira alma da nação — é empurrado à margem, como espectador da própria ruína.

E então resta a pergunta inquietante: onde vamos parar? O que esperar da juventude, representante das próximas gerações, se o presente lhes entrega um futuro desfeito em cinismo e corrupção?

Talvez, em algum canto, ainda resista uma faísca: um verbo adormecido, aguardando o momento de ser conjugado com força e coragem — mudar. Porque o destino do Brasil não pertence aos salões dourados do poder, mas às mãos calejadas de seu povo, às vozes que ousam clamar e aos corações que acreditam, mesmo em meio ao caos, que ainda é possível reescrever esta história.

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