Em tempos de Inteligência Artificial Generativa, avaliar exclusivamente o produto final tornou-se insuficiente.
Um texto pode ser bem escrito.
Uma síntese pode parecer sofisticada.
Uma resposta pode estar formalmente correta.
Mas isso não significa, necessariamente, que houve aprendizagem.
A Inteligência Artificial Generativa pode apoiar a escrita, a organização das ideias e a revisão textual. No entanto, ela não substitui o percurso formativo do estudante, a interpretação das próprias escolhas, a incorporação de feedbacks nem a responsabilidade intelectual de quem aprende.
É nesse contexto que o portfólio reflexivo ganha ainda mais relevância como método criterial de avaliação no Ensino Superior.
As categorias e os critérios que venho sistematizando para a avaliação de portfólios não surgem de uma opinião ocasional. Derivam de uma investigação científica desenvolvida em tese de doutorado, centrada no portfólio como dispositivo de autoavaliação e heteroavaliação das aprendizagens no Ensino Superior.
Esse método considera dimensões como:
— seleção de evidências significativas;
— justificação das escolhas realizadas;
— relação entre teoria e prática;
— reflexividade crítica;
— autorregulação da aprendizagem;
— uso do feedback;
— síntese final do percurso;
— apresentação e defesa oral.
Não se trata de acumular tarefas em uma plataforma digital. Trata-se de tornar visível um percurso de aprendizagem.
A IA pode produzir texto.
O portfólio precisa revelar percurso.
Por isso, em vez de perguntar “quem escreveu este texto?”, talvez a avaliação contemporânea precise perguntar:
Que aprendizagem este estudante consegue demonstrar, interpretar e sustentar?
O método não é simples de aplicar. Exige planejamento, critérios claros, acompanhamento docente, feedback e leitura atenta das evidências apresentadas. Mas é justamente essa exigência que o torna potente em tempos de IA generativa.
Avaliações frágeis são facilmente imitadas.
Avaliações criteriosas, reflexivas e processuais exigem presença intelectual.
Em tempos de IA, avaliar melhor deixou de ser uma opção pedagógica: tornou-se uma exigência ética, acadêmica e formativa.